Como eu havia dito ontem, eu iria terminar a descrição de Pirabeiraba de uma forma rápida e partir para uma primeira comparação - entre alguém que mora em um bairro como o meu, zona rural, e alguém que more nas áreas centrais da cidade...
Bem, relendo o meu post anterior de ontem, percebo que já falei o bastante sobre Pirabeiraba, então vou direto para o que eu quero falar.
> Pirabeiraba X Joinville(Centro)
Quem mora em Sampa deve ter uma idéia bem formada sobre o interior, onde, reza a lenda, todo mundo fala com o r puxado característico do interiorrrr. Então eu posso dizer que Pirabeiraba é o interiorrrr para quem mora no centro de Joinville. O pessoal das áreas centrais costuma pensar que aqui é um monte de casas alemãs no meio do mato, bem longe da área central e do perímetro urbano. Nem é tão longe assim, menos de meia hora de carro e voce já está perto do Shopping Muëller, o maior de Joinville. Quem vai de ônibus, contudo, tem mais problemas, porque as linhas que nos levam até os terminais do centro são poucas, e depois das 23:00 quem estiver no centro não volta mais pra casa...
Mas então, por que os joinvillenses mais urbanos pensam que aqui é o meio do mato e nós não pensamos isso deles? Pra começar, claro, é porque eles nunca vem aqui, enquanto nós vivemos indo para a área central...
Além desse motivo óbvio, creio eu, ainda há outra razão forte para que Pirabeiraba esteja associado à mato e falta de civilização. Essa razão, contudo, está longe de ser exclusiva dos joinvillenses. É, na verdade, uma idéia enraizada na nossa cultura, parte da ideologia que invade o modo de pensar da maioria dos brasileiros...
O namorado de uma amiga minha ficou impressionado quando viu uma agência do Banco do Brasil aqui em Piracity. Vai ver ele achava que o pessoal daqui guarda o dinheiro debaixo do colchão. Bem, e ainda guardam sim. Mas tem agência do Banco do Brasil mesmo assim.
Não é só dos joinvillenses associar zona rural com alguns sítios e casinhas, animais no quintal e plantações, povo simples e, para os que tem mente mais aberta, energia elétrica (¬¬)
Depois de ter morado em três capitais - São Paulo(SP), Maceió (AL) e Vitória (ES), ter vindo para Pirabeiraba não foi necessariamente um choque. Em parte, porque eu já tinha morado em um lugarejo ainda mais morto - São Francisco do Sul, SC, mas essa em compensação ganha vida durante a temporada, uma vez que é cidade litorânea, de veraneio.
Mas de qualquer jeito, é um choque voce chegar em uma cidade à uma hora da tarde e encontrar todo o comércio fechado, como se fosse feriado, e sem nenhuma alma na rua, como se fosse uma cidade fantasma. Pois é, levei esse choque quando cheguei aqui, até entrar no ritmo do lugar leva certo tempo, e demora ainda mais para que voce se sinta em uma nova casa, porque o pessoal não ajuda muito...
À excessão de Vitória, quando voce chega em um lugar mais urbano, as pessoas não se preocupam muito de voce nasceu ali ou veio de fora. Como não há muita união entre os cidadãos, tanto faz se o novo vizinho é forasteiro ou nasceu no hospital da cidade.
Mas aqui em Pirabeiraba, assim como acontece em muitas cidades pequenas, parece que há muita união entre as pessoas, se você veio de fora eles olham voce da cabeça aos pés, o que faz parecer que "Forasteiro" está estampado na sua testa. Parece ruim para quem chega, e é mesmo desconfortável se sentir um peixe fora d'água, ás vezes até excluido de alguns grupos, mas como eu já estou aqui há alguns anos, eu percebi que essa é a primeira linha de defesa contra "invasores";
Linha de defesa? Nossa, o blogger bebeu muito chop? Não, mas é uma forma de dizer o quanto o pessoal daqui busca se preservar do que vem de fora, mesmo as gerações atuais. A primeira forma de proteção é a própria aura de mito que envolve a cidade pequena, a zona rural - é e não é útil para as pessoas daqui que as pessoas de fora achem que Pirabeiraba é um mato sem graça, porque já faz alguém pensar duas vezes antes de vir de mala e cuia pra cá.
Mas quem vem pra cá, pra morar ou não, ainda assim enfrenta uma resistência por parte dos moradores. Quem foi de uma cidade grande pra uma cidade pequena deve saber do que eu falo - o pessoal é bem fechado, ainda mais quando são apegados à tradição... Aqui, colônia alemã, o povo é ainda mais reservado, demorei um ano para começar a dizer oi para minha vizinha atual, e dois anos para puxar assunto com minha outra vizinha, que eu quase nunca via. E eu nem sou antisocial.
Quem gosta de fazer amizades onde chega sofre um pouco quando cai no meio de um monte de gente que forma os próprios grupos e é fechada à quem vem de fora. Mas quem mora em cidade grande sabe que não se encontra tanta violência em uma cidade pequena, por exemplo. E nesse ponto, o pessoal de uma cidadezinha é igual ao pessoal urbano - temos medo das mesmas coisas, que a violência, por exemplo, invada nossa cidade, cresça e transforme-a em algo impossível de se habitar. Mas enquanto quem mora na cidade grande já viu a violência chegar e crescer, quem mora numa cidadezinha tem muito mais medo, simplesmente por desconhecer a realidade dos crimes de uma cidade grande.
A página policial de um mês em Joinville não equivale nem à página policial de uma semana em São Paulo. mesmo assim, o pessoal reclama, fala que as coisas estão ficando cada vez mais difíceis, que a violência está aumentando... Em parte, isso acompanha o crescimento da cidade, mas os joinvillenses estão reclamando além do que parece cabível. Em Pirabeiraba então, a coisa fica ainda mais crítica:
A sobrinha de uma vizinha veio do Rio de Janeiro visitar a tia, e como gostou daqui ela foi dar um passeio para tirar fotos das casas, das ruas... Encontrou um velhinho, que a cumprimentou e perguntou se ela era fotógrafa. Ela achou engraçado, disse que não, que era carioca e só estava tirando fotos porque gostou da cidade. Despediram-se e cada um segui seu caminho, ela tirando fotos, mas o velinho... Até hoje ela não entende porque ele foi até a delegacia avisar a polícía que tinha uma pessoa estranha, carioca, tirando fotos das casas. Na certa ele achou que ela estava fazendo um Book da cidade para vender para os assaltantes cariocas.
E o pior é que dois policias foram até onde ela estava, com viatura e tudo, perguntado porque ela estava tirando fotos...
Mas não é só o medo da violência que faz as pessoas de Pirabeiraba ou de cidades pequenas se fecharem diante de forasteiros, mas como eu não sou nem louco de alongar esse assunto, fica para amanhã.
Aprendemos hoje que:
- Se voce é de cidade grande, nao saia por aí tirando fotos de cidades pequenas, e se encontrar um velhinho na rua, esconda a câmera.
- Se voce é de cidade pequena, só suspeite de um fotógrafo se ele esconder a câmera quando ver você.
Boa noite povo!
quinta-feira, 10 de janeiro de 2008
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário