Se bem me lembro, no último post eu falava sobre as defesas das cidades pequenas contra o que vêm de fora. No caso de Pirabeiraba, por exemplo, o que ilustra essa idéia é o fato do pessoal daqui sentir-se desconfiado de quem vem de fora ou de quem não é de tradição alemã ou italiana (vide o caso do velhinho e da fotógrafa carioca, citado anteriormente...).
A raiz por traz desse aparente princípio de xenofobia (não sou freudiano ¬¬) seria o medo de ter a cultura/tradição desfeita pela cultura de outros?
Nesse ponto é para se perguntar - existe uma cultura urbana, totalmente diferente da cultura de uma cidade pequena e tradicional? Nas cidades grandes, a cultura é uma noção mais aberta e receptiva - Em São Paulo, por exemplo, está acontecendo a comemoração da Imigração Japonesa, e isso é uma celebração de tradições mantidas com orgulho e carinho pelos descendentes.
Aqui em Joinville, a tradição alemã e a tradição italiana são mantidas com esmero, mas os esforços para fazê-lo são bem menos notáveis do que as celebrações da cultura nipônica, no exemplo do parágrafo acima. A questão é - nas cidades pequenas e tradicionais a cultura do povo fica mais enraizada e não precisa ser celebrada para ser mantida? Ou seja, a tradição dos antepassados já está presente no dia-a-dia, sem que tenham que haver comemorações para mostrar que ela ainda existe? E as tradições na cidade grande precisam ser celebradas volta e meia para não serem esquecidas? Não acho que seja assim.
Em Pirabeiraba, achar que o pessoal dos grandes centros urbanos não dá valor à cultura de seus antepassados já é uma idéia formada na cabeça do pessoal mais tradicional. E, claro, a culpa sempre é dos jovens, que "aceitam apenas a cultura da mídia e esquecem suas próprias raízes"... Não sei como estão as coisas nas outras cidadezinhas e lugarejos, mas aqui em Pirabeiraba a coisa não é assim. Os jovens que aqui moram (pedra na gente!) não são ícones da cultura alemã ou italiana. Muitos não falam nenhuma palavra nas línguas de seus ancestrais colonos (exceto hund, que é uma palavra básica). Muitos também não suportam músicas alemãs, outros não agüentam nem músicas italianas das novelas da Globo. Normal, claro, pois cada um é cada um.
Mas os "tradicionais" das cidades pequenas reclamam muito mais de uma fantasiosa falta de cultura na cidade grande do que da perda lenta de cultura nos seus próprios descendentes. Na escola em que eu estudei, o Akon era muito mais famoso do que o Waldviertler Nätche, por exemplo. Ainda que um ou outro saiba falar algumas frases em alemão, isso não é manter a cultura, tal como estão fazendo os nisseis em São Paulo.
A cultura européia que os descendetes de colonos daqui prezam tanto não é mais tão européia assim. Ninguém na Alemanha se veste mais como o pessoal daqui costuma se caracterizar nas festas típicas. É importante dar valor à tradição e manter o olho aberto sobre o que a mídia e os EUA empurram pra gente, mas é muito mais importante manter a mente e os sentidos abertos para todas as influências culturais. Negar uma cultura diferente ou julgar os jovens ou o pessoal da cidade grande como sem-cultura é uma falta muito grave do pessoal tradicional de algumas cidades pequenas.
O bom é que moramos no Brasil, e nada aqui fica intacto, quieto... Tudo está sempre se transformando, mudando, ficando com mais cara de brasileiro. A cultura do alemão se mistura com a do índio, que se misturam com a do português, que se misturam com a do italiano, e assim vai... O pessoal tradicional celebra a tradição alemã, como é o caso daqui, mas vivem a cultura brasileira no seu dia-a-dia...
Mas na verdade é bem difícil caracterizar a cultura brasileira. Até hoje ninguém sabe dizer direito que idéias ou símbolos unem o pessoal todo do Chuí ao Oiapoque... Tem a cachaça, o carnaval e o futebol, e aquela idéia de que brasileiro é piadista, sempre ri de tudo e, claro, dá o famoso jeitinho brasileiro pra se safar de certas situações... mas isso é muito pouco para formar uma identidade brasileira (para não mencionar o fato do pessoal daqui ser totalmente indiferente ao carnaval).
Talvez seja essa a identidade brasileira - as muitas culturas de quem era daqui e de quem veio de fora, juntas, formando algo que nunca vai ter uma cara só, mas que já não se separa mais.
Só que depois desse momento professor de geografia, ficam aquelas perguntas - por que o pessoal mais tradicional, seja de cidadezinhas ou de cidade grande, tem medo de ver a tradição perdida entre as gerações futuras? Por que tem gente de cidade grande que não entende o apego à tradição do pessoal das cidades pequenas, e por que o pessoal dessas cidadezinhas costuma pensar que o pessoal da cidade grande não zela mais por sua herança cultural?
Responderei no próximo post, por que quanto mais tarde ficar, maior fica o risco de eu falar alguma besteira terrível (espero não ter falado nenhuma até agora hehehe).
****** Assunto extra-blog ******
Como o blog virou meu espaço de comunicação (ou pelo menos de desabafo), vou comentar sobre algo que me deixou até meio revoltado esses dias. Não sou muito ligado em futebol, muito menos quando se trata de mídia futebolística... Mas eu soube que o Kaká doou seu último troféu (Melhor do Mundo em 2007, eleito pela FIFA) para seus "guias espirituais" - a bispa Sônia e o marido dela, os cabeças da Igreja Renascer em Cristo.
Não estou atacando a igreja nem a fé dos devotos dela, mas será que o Kaká é tão mentalmente incapacitado para não estar a par dos escândalos em que se envolveram seus adorados gurus? Para quem não sabe ou não lembra, a bispa Sônia e o marido dela, Hernandes (cujo título deve ser pastor, se não me engano), foram presos nos EUA quando tentaram entrar com um porrilhão de dólares não declarados. Não podemos condenar, porque muita gente não faz isso só porque não tem esse dinheiro, mas eles dois deviam ser exemplo... São gente pública, e como se não bastassem, líderes espirituais, o que eles dizem deve ter o máximo de cuidado e atenção, pois a atenção com que os fiéis irão escutar suas palavras também vai ser a máxima.
Se as palavras do casal da Renascer já são um instrumento poderoso para influenciar os fiéis, suas ações são ainda mais. Mas o incrível é que apesar deles estarem presos nos EUA e respondendo a vários processos de estelionato, o número de fiéis da Renascer em Cristo aumentou muito nos últimos dias.
Eles, pregando o que pregam, falando de quem falam, ligados à Cristo, deveriam ser os priemeiros a dar o exemplo de humildade e honestidade... Sonegar todo aquele dinheiro de origem duvidosa é algo bem condenável aos olhos cristãos, creio eu... Vai ver os dois ainda não renasceram em Cristo.
Mas foi o cúmulo aquele jogador pateta doar para eles o troféu que ganhou com o próprio esforço. Claro que o prêmio é dele, mas parece que o mérito não. Desde os tempos em que ele era reserva ele dava duro para mostrar que tinha futuro, e agora que está na mídia, faz uma tolice dessas... Doar o troféu para seus "líderes espirituais" é a prova de que ele se considera incapaz de conquistar qualquer mérito sem ajuda divina. Se ele crê que o sucesso depende não de esforço e persistência, mas de rezar no último volume e pagar o dízimo, então todos aqueles que trabalham duro para ter uma vida melhor estão errados, deviam entregar nas mãos de Deus e esperar o melhor, pois não importa o quanto eles se esforcem, são incapacitados e só conseguirão algo de bom para suas vidas se estiverem sendo guiados espiritualmente.
Desse modo, não sei como o Kaká explicaria a existência de ateus ricos, e nem se ele tem assistido tv do Brasil nos últimos meses para ver seus gurus sonegando a glória que alcançaram com o auxílio de Cristo... mas não acho que eles tenham condições morais para serem guias de qualquer coisa, nem de guias de como sonegar na alfândega, pois nem nisso foram bem-sucedidos...
O céu ajuda a quem se ajuda, já dizia Esopo - e ele era grego e pagão. Se o Kaká acha que é melhor dar o crédito todo ao Céu, então ele devia dizer a FIFA que não foi graças ao talento dele que chegou a ser melhor jogador do mundo, mas sim ao melhor jogador do céu, que deve ter jogado por ele assim que ele começou a seguir seus guias espirituais, exemplos de honestidade e integridade...
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